UM CARA DE SORTE

 

Texto: A.C.Cravo
Fotos: A.C.Cravo


 

       Meu Duende verde diz que sim e que muitas vezes ele dá uma ajudazinha, mas particularmente não acredito que a sorte influencie muito nas pescarias, embora pelas minhas observações os novatos em sua primeira saída na maioria das vezes voltam com o maior peixe ou maior quantidade. Foi assim na minha estréia na represa de Itumbiara, onde o “Mestre Tucuna” ensinava-me o manuseio das iscas artificiais e teve de “engolir” um Tucunaré de cinco quilos, ferrado com uma Zara que eu havia aprendido a “trabalhar”no dia anterior.

 
 
 

       Depois andei tomando também as minhas cacetadas, de iniciantes na pescaria com iscas artificiais que nem sabiam o nome da isca, como o Carlão, depois meu parceiro, que gritava entre a retirada de um Tucunaré e outro: Mestre, como é mesmo o nome deste charutinho que estou usando?
 
       Para desespero daqueles que não os conseguiam pescar e quando isso acontecia perdiam-nos por estarem mal ferrados.

 

       Porém, sorte para mim só na estréia, quando parece que os anjos protetores dos donos de lojas de material de pesca ajudam o incauto iniciante a pescar mais peixes e ficar fascinado pelo esporte, pensando que será sempre assim. Quando acordar, se não tiver sido bem orientado estará de posse de uma tralha enorme e muitas vezes incompatível para a pescaria que deseja fazer e acabará, quando pescando com os amigos mais experientes ou cuidadosos, taxando-os de sortudos, quando na verdade era tudo fruto de muito trabalho anterior.
 
       Hoje, talvêz até pela escassez do peixe, que cada vez fica mais difícil de ser encontrado o pescador “sem sorte” deverá aproveitar todas as oportunidades para observar o “sortudo”. E aí verá que a pescaria dele começa muito ates do dia marcado.

 
 

       Que ele verifica o material, trocando as linhas se necessário, lubrifica os molinetes ou carretilhas para que trabalhem suavemente, sem desgastar as peças interiores e chega ao ponto de verificar as pontas de seus anzóis trocando-os se necessário e escolhendo nessa ocasião as melhores iscas para a pescaria que irá realizar.
 
       Sua caixa de pesca ou mochila é normalmente limpa e organizada (infelizmente nem todas) para que na pescaria nada lhe falte e esteja tudo à mão.
 
       Escolhe as varas conforme a linha que irá utilizar e para facilitar levará no mínimo duas, uma destinada às pescarias de média distância e outra para arremessos mais longos.
 
       Quando da pescaria, o sem sorte verá que o sortudo não chega e simplesmente vai jogando as iscas na água.

 
 
 

       Ele, conhecedor dos hábitos dos peixes procura os locais certos e aí sim arremessa – e bem – as suas iscas, consciente de que fez um bom trabalho que poderá ate não redundar em peixes mas certamente não será por culpa dele.
 
       E que quando ela termina o “sortudo” dentro das possibilidades cuida do seu material ali mesmo como numa pré lavagem, cuidando para que ele não seja guardado sujo ou com eventuais grãos de areia.

 
 
 
 

       Tudo isto que estou falando vale para outros tipos de pescarias, como: Costão, Barranco, e até mesmo a pescaria nos Pesque e Pague, tão comum nos dias de hoje. Basta fazer as substituições pertinentes. Porém, estejam certos que não existe sorte absoluta em pescarias. Pescando no mesmo local e em condições idênticas, normalmente o resultado entre dois pescadores igualmente técnicos será “pau a pau”.
 
       Isto não é sorte, é preparação, é conhecimento, é técnica!

 

       Claro que se toda regra tem exceção um dia ou outro o resultado poderá ser diferente e aí só nos restará dizer alegremente:
 
       To com uma Uruca!

 
 
 

       Resumindo: A grande sorte do “sem sorte” é encontrar como eu, um companheiro que lhe ensine pelo menos os rudimentos da pescaria que deseja praticar e depois continuar observando e praticando. Lembrando-se que em pescaria estamos sempre aprendendo e que normalmente a técnica prevalecerá sobre uma possível fase de má sorte, no entanto, às vezes, nada disso que eu escrevi funciona.
 
       Restará o consolo de abrir uma latinha e beber vagarosamente enquanto pensa: “QUE CARA RABUDO!”

 

       PS: Considere sempre que na pescaria nunca sabemos tudo e que a cada uma delas aprenderemos sempre alguma coisa mais, principalmente naquelas que não deram certo.